Oito de Copas

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Ela tinha que deixar tudo aquilo para trás. Ela sabia. Naquela época, ela era Nina. Não Carolina. Ela não tinha paciência, hoje ela tem. Era egoísta (isso, na verdade, ela ainda é). De qualquer forma, ela evoluiu. Pronto. Fim de papo.

Droga. Por que teve a brilhante ideia de fazer uma busca nos e-mails antigos? Por que achou aquela conversa e decidiu ler? Não era nada demais. Uma conversa como tantas outras que eles tinham durante o dia. “Comprou café? Tem pilha em casa? Amanhã viajo cedo…”. Palavras simples, mas que perfuraram seu coração como uma espada. Nelas, amor e carinho transbordando de um lado e o tédio e desinteresse aparecendo do outro. Do seu lado.

Deixa disso, Carolina. Nina não existe mais. Fecha a janela do e-mail, limpa as lágrimas, mergulhe de cabeça neste oceano que é o seu interior e abra espaço para a Carol nascer em você.

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A Imperatriz

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Alice não se lembrava da última mês que tinha tido contato com a terra. Seus pés, sempre cobertos, conheciam melhor o asfalto ou, melhor, o carpete felpudo do apartamento de três quartos que dividia com a filha e com o marido.

Quando Carolina, do alto dos seus três anos, chegou da escola com uma singela mudinha em um vaso de plástico e pediu a ajuda da mãe para regar a planta, Alice travou. Não sabia como fazer aquilo. Quanta água era necessária? Meio copo seria suficiente? Não ficou em dúvida por muito tempo. Foi direto para o Google: muda+quantidade+água. Com a resposta em mãos, foi cumprir seu dever de mãe e ajudar a pequena.

Trabalho concluído, Carolina já desinteressada, correndo para pegar seu tablet e, sabe-se lá porque cargas d’água, Alice ficou em pé, olhando fixamente para a mudinha que, ela jura, parecia realmente feliz depois do seu banho.Em um impulso incontrolável, tinha que tocar na areia úmida. Mexeu na terra por um tempo, como se estivesse descobrindo um brinquedo novo e sentindo sensações que não conhecia. Fechou os olhos e não resistiu à necessidade de sentir aquele cheiro, levá-lo para dentro de si. De repente, como quem desperta de um sonho, se deu conta da situação: parada na frente da pia da cozinha, com terra espalhada pelos dedos (e, ela tinha certeza, até mesmo no nariz), parecendo maluca. Limpou-se rapidamente e foi cuidar da vida, como adultos têm que fazer.

A mudança, no entanto, já tinha acontecido. Ela e aquela mudinha tão pequena tinham estabelecido uma conexão. Como se aquele vegetal que estava nascendo tivesse doado para Alice, tão cansada de tudo, um pouco da sua vontade de viver e crescer rumo às nuvens.

Alice não mudou radicalmente depois daquela experiência. Não largou tudo e foi viver no campo, não se separou do seu marido em busca de liberdade, nem mesmo deixou de comer os pratos industrializados que gostava. Mas algo dentro dela se libertou. Passou a reparar no seu corpo, a sentir seus batimentos cardíacos, a aproveitar a luz do sol que batia no seu rosto. E substituiu o carpete felpudo do apartamento por tábuas de madeira, por onde adorava andar descalça com Carolina, como se fossem fadas, com guirlandas de flores nos cabelos.