A Imperatriz

taro

Alice não se lembrava da última mês que tinha tido contato com a terra. Seus pés, sempre cobertos, conheciam melhor o asfalto ou, melhor, o carpete felpudo do apartamento de três quartos que dividia com a filha e com o marido.

Quando Carolina, do alto dos seus três anos, chegou da escola com uma singela mudinha em um vaso de plástico e pediu a ajuda da mãe para regar a planta, Alice travou. Não sabia como fazer aquilo. Quanta água era necessária? Meio copo seria suficiente? Não ficou em dúvida por muito tempo. Foi direto para o Google: muda+quantidade+água. Com a resposta em mãos, foi cumprir seu dever de mãe e ajudar a pequena.

Trabalho concluído, Carolina já desinteressada, correndo para pegar seu tablet e, sabe-se lá porque cargas d’água, Alice ficou em pé, olhando fixamente para a mudinha que, ela jura, parecia realmente feliz depois do seu banho.Em um impulso incontrolável, tinha que tocar na areia úmida. Mexeu na terra por um tempo, como se estivesse descobrindo um brinquedo novo e sentindo sensações que não conhecia. Fechou os olhos e não resistiu à necessidade de sentir aquele cheiro, levá-lo para dentro de si. De repente, como quem desperta de um sonho, se deu conta da situação: parada na frente da pia da cozinha, com terra espalhada pelos dedos (e, ela tinha certeza, até mesmo no nariz), parecendo maluca. Limpou-se rapidamente e foi cuidar da vida, como adultos têm que fazer.

A mudança, no entanto, já tinha acontecido. Ela e aquela mudinha tão pequena tinham estabelecido uma conexão. Como se aquele vegetal que estava nascendo tivesse doado para Alice, tão cansada de tudo, um pouco da sua vontade de viver e crescer rumo às nuvens.

Alice não mudou radicalmente depois daquela experiência. Não largou tudo e foi viver no campo, não se separou do seu marido em busca de liberdade, nem mesmo deixou de comer os pratos industrializados que gostava. Mas algo dentro dela se libertou. Passou a reparar no seu corpo, a sentir seus batimentos cardíacos, a aproveitar a luz do sol que batia no seu rosto. E substituiu o carpete felpudo do apartamento por tábuas de madeira, por onde adorava andar descalça com Carolina, como se fossem fadas, com guirlandas de flores nos cabelos.

Anúncios

Resenha: Um Oceano no Fim do Caminho, Neil Gaiman (2013)

600livro-960968 (1)“Não dá para beber água do mar, não é mesmo? Salgada demais. É como sorver o sangue da vida.”

Ficha
Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Publicação: 2013

Leia se você…
É fã de histórias fantásticas.
Lembra da infância com nostalgia.
Curte romances de ficção.
Adora personagens femininas fortes.

A história
Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.

Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.

Fonte: Skoob

Meu pitaco
Tem coisa mais triste do que uma festa de criança que ninguém vai? Pois esse episódio deprimente acontece com o narrador de “O Oceano no Fim do Caminho”, de Neil Gaiman. A festa de sete anos sem convidados já dá uma pista sobre a personalidade solitária do personagem, que permanece sem nome, um garoto que se refugiava nos livros, que “eram mais confiáveis que pessoas, de qualquer forma”.
Apesar do narrador ser do sexo masculino, o livro celebra a força feminina, com Lettie Hempstock, a única amiga do protagonista, sua mãe e avó. Mulheres fortes não são novidade para Gaiman. Em “Coraline e a Porta Secreta”, a coragem que move a personagem-título coloca no chinelo muito marmanjo por ai.

Podemos parar por aí com a história de homens solitários e mulheres fortes. “O Oceano no Fim do Caminho não é um livro sobre gênero”. É sobre escolhas que fazemos e as consequências delas. Sobre medos profundos da infância que até são convenientemente escondidos enquanto temos o trabalho de crescer, mas que continuam lá e aparecem quando a gente menos espera.

Com sua já consagrada habilidade de tratar com profundidade as lembranças e questões da infância, Gaiman nos leva para um mundo de fantasia, mas com sentimentos muito reais. Desperta recordações e sensações há muito adormecidas e mesmo sendo entretenimento da melhor qualidade nos leva à reflexão. O que deixamos para trás? A que custo? No meu caso, fez lembrar de muitos sonhos e desejos de infância e despertou uma vontade imensa de comer brigadeiro direto na panela como nos velhos tempos.