À procura

2015-12-06 00.58.40Saí com passos incertos naquela manhã. As pernas tremiam, os braços não encontravam seu lugar e até a cabeça fazia um movimento estranho. Quem me via, certamente achava que eu tinha um problema motor. Fisicamente, pura esquisitice. Racionalmente, pura certeza. Saí certa e decidida sobre o que queria.

Dar. Não queria amor, carinho, demonstrações de afeto. Queria só dar.

Não aguentava mais aquela situação. Tinha 20 anos, pelo amor de Deus. Em pleno século 21, como alguém com essa idade ainda é virgem? Eu tinha algum problema, com certeza. E estava determinada a resolver essa questão.

Sei que não sou uma pessoa feia. Ok, nunca fui uma beldade. Cabelo fino, preto, sem graça, corpo relativamente desproporcional, peitos de personagem de anime e zero bunda. Ainda assim, atrair o sexo oposto nunca foi problema. Mas lá estava eu. Vinte anos e completamente virgem.

Aquilo tinha que acabar. Dar, dar, dar. Pensamento fixo.

Sorte minha, imaginei, que comecei o projeto “Ou dá ou dá” em um sábado de carnaval.

Tolinha.

Queria ter colocado uma fantasia virginal para combinar com meu hímen não rompido. Infelizmente, a cor branca não me favorece. Não encontrei no armário nenhum vestido rendado fofo cor de algodão para ostentar o meu tesouro para os foliões de plantão (Tesouro… Pausa para risos. Aquilo era um fardo, isso sim!).

Na falta da fantasia “Virgem perfeita”, me virei com o que tinha em casa mesmo. Por preguiça e falta de planejamento me vi saindo portaria afora com o que, para mim, era o kit de dormir de Holly Golightly em “Bonequinha de Luxo”: máscara de dormir azul, gato amarelo de pelúcia e brincos franjados em rosa-choque.

Os passantes de Copacabana certamente não eram fãs de Audrey Hepburn. Eu era apenas uma pessoa que tinha fumado/bebido/injetado muito e tinha saído na rua assim mesmo. A sorte é que era carnaval e ninguém ligava.

Ignorei a falta de conhecimento daquela gente. Eu era alguém com uma meta. Aquele maldito pedaço de carne tinha que partir. Era ele ou eu. Já imaginava a mulher glamourosa e incrível que seria quando tivesse me livrado daquele problema.  

Quando estou focada, tenho o hábito de agir sozinha. Ignorei as ligações, mensagens de amigos convidando para bloquinhos e parti na missão. Era ousada e independente, afinal.

Na teoria, tudo certo. Na prática, me senti meio deslocada no meio de grupos enormes de pessoas. Todos pareciam se conhecer e eu estava lá, sozinha, com meu hímen radioativo.

Foco na missão”, pensava. Não sou de beber, mas precisava de um impulso. Cheguei no ambulante  e perguntei o que ele tinha para dar coragem. Sem titubear: “Jurupinga”. Cara de dúvida e ele completa: “Juro pinga, mas não juro amor”. Opa, perfeito! Passa pra cá.

Ainda tonta da pinga sem amor, senti um braço encostando no meu. Dã, era um bloco. Profusão de braços suados se encostando o tempo todo. Mas aquele. Ah, aquele braço. Bronzeado, pelos loirinhos, firme sem ser duro, sabe? Aquele braço ia me ajudar na missão “Jane not the Virgin”. Fiz a única coisa que podia fazer no momento. Segurei o braço do Thor de forma bizarra, olhei para ele com um olhar suplicante (que, hoje sei, deve ter parecido um olhar psicopata) e disse: “Bebi Jurupinga. Me ajuda?”.

Acho que aquilo devia ser uma espécie de senha, porque ele nem hesitou. “Vou te dar uma água.”. Três garrafas depois, devidamente hidratada, sentadinhos no chafariz da Praça XV, consegui olhar a fantasia dele. Viking.

Pera, não me expressei direito: ele era “O” viking. Ragnar Lothbrok ia se roer de inveja.

Como vocês devem se lembrar, eu era uma moça em uma missão.  “Vamos sair daqui?”. O homem nórdico ficou confuso. Quem? Onde? Como? Pra que? Eu não queria perder tempo. “Quero conhecer sua porção Thor na cama”. Ok, foi ruim, bem ruim. Infantil, quase, admito. Mas queria acabar logo com aquilo. A visão dele nu não me enojava. isso era um começo.

Não tive sucesso. Meu Ragnar rapidamente se transformou em um lorde inglês cheio de desculpas. “Meus amigos, meus compromissos, não posso largar meu machado…Vamos conversar primeiro?”.

Sem tempo para lamentação. Missão dada é missão cumprida. Agradeci e parti para a próxima. Cambaleante (de quem foi a ideia da Jurupinga?), mas sempre em frente e com dignidade. Nada iria me segurar.

Sorte que o centro do Rio de Janeiro é quase uma cidade de interior. Com alguns passos vacilantes, estava na Lapa. Deixo os países nórdicos para entrar em um mundo eclético. Com curupiras, jogadores de futebol (alguém não teve tempo de arrumar fantasia também) e muitas, muitas sereias.

Sempre fui tradicional (hímen intacto com 20 anos, certo?), não foi surpresa me encantar pelo primeiro pierrô na rua. A fantasia dele estava bem caidinha, na verdade. Sapatos vermelhos não combinam com essa roupa, alô! Mas… O olhar dele me encantou. Olhos pretos, caídos, tristes. Me levaram a pensar que era um cara romântico, que me entenderia e faria minha primeira vez especial (hahahahahahahahahaha. Desculpa, não devia me adiantar, mas #sqn).

Ok, estraguei a surpresa, mas o pierrô de pierrô não tinha nada. O olhar triste era lascivo, o amor pela colombina era, bem, amor pelo pau dele. Isso não seria ruim,especialmente na minha missão. Só que ele, veja bem, não queria trepar (fazer amor não se encaixa aqui, vocês entendem, né?). Ele queria só comer alguém. Ou, palavras dele, ser chupado. Bom, passei essa aí. Sem arrependimentos.

Cara, dar no carnaval não devia ser tão difícil, né? Mas foi. Cabisbaixa, com a máscara de dormir azul já emporcalhada e o gato amarelo perdido, segui adiante.

Da Lapa para o CCBB, um pulo. Se o bloco não era meu caminho, a sala de projeção havia de ser.  Um oásis no meio daquela horda de corpos suados. Entrei na livraria para tomar fôlego e continuar minha missão (aquele hímen tinha que ir embora!).

Na dúvida entre um livro do Ian McEwan e outro da Jennifer Egan, me distraí e tropecei em um anjo (a fantasia era de anjo, a cara era de anjo e o jeito era de anjo, então me permito descrever dessa forma, ok?). O nome dela era Ruth, o que eu gostei. Sempre curti nomes, hã, vintages.

Assim como eu, Ruth buscou abrigo no CCBB. A identificação foi imediata. Em 10 minutos estávamos sentadas na frente da cafeteria trocando impressões, frustrações e desejos como  se fôssemos velhas amigas.

Como boa recruta, olhei pra ela e pensei se eu não estava procurando no lugar errado. Seria tão mais fácil tentar me relacionar com uma pessoa como esse anjo, que me vê e me entende (ou tenta me entender), que está na minha pele e, dia após dia,  sente a pressões que eu sinto.

Estava divagando quando ela pegou minha mão, de uma forma carinhosa. Olhei para ela e achei, por um segundo, que minha missão estaria cumprida. Não durou muito. Não era aquilo. Dei um abraço, troquei contatos e soube que Ruth seria minha amiga. Para sempre ou, na pior das hipóteses, por um longo tempo.

Desanimada, desisti do filme e fui embora. Estava dando minha missão como encerrada, ciente do meu fracasso (meu hímen ainda latejava, o maldito) quando parei e tive uma surpresa. Olhei para o lado e tinha uma vitrine. No reflexo, os meus traços. Mas o olhar era diferente, Confiante, combinando com a roupa: tubinho preto, colar de pérolas. Nada poderia segurar aquela mulher. E aquela mulher, ah, ela era eu. E o hímen, ah, ele era só um pedaço de carne, no final das contas.

No dia seguinte, fui de Mulher Maravilha.

(E reencontrei aquele viking)