Daisy

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Finalmente ela foi embora. Já não era sem tempo. A presença dela na casa me sufocava. Minha vida já está uma bosta: sem emprego, desenhando cada vez pior, vendo minhas economias minguarem a cada dia. Sou um ilustrador de merda e ela faz questão de deixar isso claro.

O olhar de desdém, as tiradas irônicas e a impaciência no trato. Tudo isso dói. Mas o pior foi outra coisa: ver sumir a admiração no olhar dela. No dia que a Daisy deixou de acreditar em mim, eu também deixei.

Não quero ficar aqui me lamentando. Agora estou livre! Vou fechar essa droga de computador e, finalmente, curtir a vida. Agora posso ser tudo o que sempre quis.

Só preciso arrumar umas coisas antes. A bagunça que ela deixou para trás, por exemplo. Nem na hora de ir embora aquela garota consegue manter as coisas em ordem. Parece que faz de propósito. Acha que assim não vou esquecê-la. Idiota.

O All Star rosa que ela usou no nosso primeiro encontro: direto para o lixo. A bolsa de miçangas que minha mãe deu para ela no último Natal: lixo também. O livro esquecido debaixo da cama: direto para a lixeira! Opa. Não. Pera.

Não acredito que ela não levou “O Grande Gatsby”. É o livro preferido dela.

Daisy não deixou o livro sem querer. Foi de propósito, claro. Ela vai voltar.

Minha nova vida pode esperar um pouco. Vou só reler aquela parte que gosto…

“So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.”

Claro que ela vai voltar.